Como calcular o valor do frete do caminhão e saber se ele compensa
A conta para chegar no frete mínimo de uma viagem: custo por km, volta vazia, pedágio, piso da ANTT e margem. Com um exemplo de rota do começo ao fim.
Na hora de fechar um frete, a pergunta é uma só: esse valor paga a viagem e ainda deixa alguma coisa? Para responder sem chute, você precisa de três números: quanto o caminhão custa por quilômetro, quantos quilômetros a viagem vai rodar ao todo e quanto você quer que sobre.
Este artigo mostra a conta inteira com um exemplo.
O que você precisa saber antes de calcular
O seu custo por km. É quanto o caminhão gasta para rodar um quilômetro, somando diesel, pneus, manutenção e a parte dos custos fixos (parcela, seguro, IPVA, salário). Se ainda não tem esse número, comece por como calcular o custo por km do caminhão. Neste artigo vamos usar R$ 4,52 por km, o resultado daquele exemplo.
A quilometragem total da viagem. Além da distância da coleta até a entrega, conte:
- o deslocamento até o ponto de coleta, se o caminhão não está lá;
- a volta, se ela for vazia;
- os desvios que você já sabe que vai fazer (balança, posto de confiança, restrição de horário em cidade).
Os dias que a viagem ocupa. Fila para carregar, descarga demorada e espera por documento também custam. Um caminhão parado dois dias no pátio deixa de rodar outro frete.
Passo 1: o custo da viagem
custo da viagem = custo por km × km totais da viagem
Exemplo: carga de Rio Verde/GO para Orlândia/SP. Vamos supor 650 km de ida e a volta vazia, mais 650 km. Total: 1.300 km. R$ 4,52 × 1.300 = R$ 5.876,00.
Esse é o valor que empata a viagem: paga o diesel, o desgaste do caminhão, a parte do mês da parcela, do seguro e a sua retirada. Abaixo dele, você paga para trabalhar.
Se existe frete de retorno garantido, a conta muda: a ida paga só os 650 km dela, e a volta vira outro frete com a própria conta.
Passo 2: o pedágio
Pelo Vale-Pedágio obrigatório (Lei 10.209/2001), quem contrata o frete tem que pagar o pedágio adiantado e separado do valor do frete. Então o pedágio não entra no seu preço por km.
Na prática, confira na negociação se o vale-pedágio vai vir. Se o contratante quiser embutir o pedágio no frete, some o valor de todas as praças da rota, ida e volta, no custo da viagem.
Passo 3: a margem
O custo da viagem é o ponto de empate. Em cima dele vem a margem: o que sobra para reserva, para imprevisto e para trocar de caminhão um dia.
frete mínimo = custo da viagem ÷ (1 − margem desejada)
Exemplo com 15% de margem: R$ 5.876,00 ÷ 0,85 = R$ 6.912,94.
Conferindo: 15% de R$ 6.912,94 são R$ 1.036,94, e R$ 6.912,94 − R$ 1.036,94 = R$ 5.876,00. A conta fecha.
Por que dividir e não multiplicar? Se você fizer R$ 5.876 × 1,15 = R$ 6.757,40, a margem sobre o frete fica em 13%, e não em 15%. Parece pouca coisa, mas em um ano de viagens faz diferença.
Quanto de margem colocar depende do seu caso. Quem tem parcela alta e pouca reserva precisa de mais. Quem está com o caminhão quitado e reserva feita pode trabalhar mais perto do custo para não perder carga.
Passo 4: compare com o piso mínimo da ANTT
A Lei 13.703/2018 criou a Política Nacional de Pisos Mínimos do Transporte Rodoviário de Cargas. A ANTT publica as tabelas com o piso por tipo de carga, número de eixos e distância, e atualiza esses valores de tempos em tempos.
Duas coisas para saber sobre o piso:
- Ele é o mínimo que o contratante pode pagar. O piso é calculado com custos médios e não garante que a viagem dê lucro. Se o seu caminhão consome mais, tem parcela mais alta ou volta vazio sempre, o seu custo pode passar do piso.
- Consulte sempre a tabela vigente no site da ANTT antes de negociar, porque os valores mudam.
O jeito certo de usar o piso: calcule o seu frete mínimo com os seus números (passos 1 a 3) e compare. Se o frete oferecido está abaixo do piso, ele está abaixo do que a lei permite. Se está acima do piso mas abaixo do seu frete mínimo, ele é legal, mas não paga a sua operação.
Passo 5: o frete compensa?
Com o frete mínimo na mão, a decisão fica mais clara:
| Frete oferecido | O que significa |
|---|---|
| Abaixo do custo da viagem (R$ 5.876) | Você paga para rodar. Só vale se for para sair de um lugar sem carga nenhuma. |
| Entre o custo e o frete mínimo | Paga a viagem, mas sobra menos que a margem que você quer. |
| Acima do frete mínimo (R$ 6.913) | Paga a viagem e deixa a margem. |
Um frete abaixo do mínimo pode valer a pena em casos específicos: quando ele leva o caminhão para uma região onde você já tem carga de volta garantida, por exemplo. Nesse caso, faça a conta da ida e da volta juntas.
O que costuma ficar fora da conta
- Tempo parado. Se a descarga demora dois dias, o custo fixo desses dias também entra. Divida o custo fixo do mês pelos dias de trabalho para saber quanto custa um dia parado.
- Despesas da viagem. Chapa, alimentação, pernoite, lavagem exigida pelo cliente. Se elas acontecem sempre, coloque na conta.
- Diesel mais caro na rota. O preço do diesel varia entre regiões. Se você vai abastecer num trecho mais caro, ajuste o custo do diesel daquela viagem.
- Prazo de pagamento. Um frete pago em 30 ou 60 dias sai mais caro para você do que o mesmo valor à vista, porque você adianta diesel e despesas do próprio bolso.
Depois da viagem, confira
O frete mínimo é uma previsão. Depois da viagem, faça a conta com os números que aconteceram: quanto foi de diesel, quanto foi de despesa e quanto sobrou no fim. É essa comparação que mostra se a sua previsão está boa ou se o custo por km precisa ser refeito.
Resumo
- Custo da viagem = custo por km × km totais, contando a volta vazia.
- Pedágio é pago à parte pelo contratante (Vale-Pedágio). Se não vier, entra no custo.
- Frete mínimo = custo da viagem ÷ (1 − margem).
- Compare com o piso vigente da ANTT, sabendo que o piso é o mínimo legal e não garante lucro.
- Depois da viagem, compare a previsão com o que aconteceu.
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