Frete de retorno: quando vale aceitar um frete mais barato para não voltar vazio
A conta para comparar a volta vazia com um frete de retorno mais barato: o que muda no diesel, nos km e nos dias, e o valor mínimo que o retorno precisa pagar.
Você descarregou em Orlândia/SP e precisa voltar para Rio Verde/GO. Aparece uma carga de volta pagando R$ 4.000, metade do que a ida pagou. Pegar ou voltar vazio?
Comparar o retorno com o valor da ida não ajuda. A comparação certa é com a outra opção que você tem: voltar vazio, que não é de graça.
A volta vazia também custa
Sem carga, o caminhão gasta diesel, pneu, manutenção e pedágio do mesmo jeito. Só não entra dinheiro para pagar isso.
Os custos fixos (parcela, seguro, IPVA, a sua retirada) ficam fora desta conta, porque correm nesses dias com carga ou sem carga. O que muda entre as opções é o que o caminhão gasta rodando e os dias a mais que cada uma ocupa.
Exemplo de volta vazia, Orlândia/SP para Rio Verde/GO, 650 km. Diesel a R$ 6,59 o litro, caminhão fazendo 3,25 km/l vazio. Para pneu, manutenção e Arla, R$ 0,62 por km, os mesmos números do artigo de custo por km do caminhão.
Volta vazia Valor Diesel: 650 km ÷ 3,25 km/l = 200 L × R$ 6,59 − R$ 1.318,00 Pneu, manutenção e Arla: 650 km × R$ 0,62 − R$ 403,00 Pedágio da volta, pago por você − R$ 300,00 Resultado da volta vazia − R$ 2.021,00
Voltar vazio tira R$ 2.021,00 do bolso. Esse é o ponto de partida da comparação.
O que muda quando você volta carregado
O frete de retorno quase nunca sai da porta onde você descarregou e quase nunca vai para a porta da sua casa. Antes de comparar, levante quatro coisas:
- Km a mais. O deslocamento até o ponto de coleta e a diferença entre o destino da carga e onde você queria chegar.
- Diesel carregado. Carregado, o caminhão faz menos km por litro do que vazio. O mesmo trecho custa mais diesel.
- Dias a mais. Fila para carregar, espera por nota, descarga demorada. Cada dia a mais é um dia em que o caminhão não está rodando outro frete.
- Despesas da carga. Chapa, descarga, comida e pernoite dos dias a mais. O pedágio deve vir no vale-pedágio de quem contrata o retorno; se não vier, ele entra aqui.
Para dar valor ao dia a mais, divida os custos fixos do mês pelos dias de trabalho. No exemplo do artigo de custo por km, os fixos somam R$ 12.600,00 por mês. Com 24 dias de trabalho, cada dia do caminhão vale R$ 525,00.
Exemplo de frete de retorno pagando R$ 4.000,00. Coleta a 65 km de onde você descarregou, entrega a 700 km da coleta, perto de casa. Carregado, o caminhão faz 2,5 km/l. A viagem ocupa um dia a mais do que voltar vazio.
Frete de retorno Valor Valor do frete + R$ 4.000,00 Diesel até a coleta, vazio: 65 km ÷ 3,25 km/l = 20 L × R$ 6,59 − R$ 131,80 Diesel carregado: 700 km ÷ 2,5 km/l = 280 L × R$ 6,59 − R$ 1.845,20 Pneu, manutenção e Arla: 765 km × R$ 0,62 − R$ 474,30 Pedágio veio no vale-pedágio Chapa e comida do dia a mais − R$ 250,00 Um dia a mais do caminhão − R$ 525,00 Resultado do retorno + R$ 773,70
A comparação
Agora coloque as duas opções lado a lado:
Opção Resultado Voltar vazio − R$ 2.021,00 Voltar com o frete de retorno + R$ 773,70 Diferença a favor do retorno R$ 2.794,70 Conferindo: R$ 773,70 + R$ 2.021,00 = R$ 2.794,70.
O frete de R$ 4.000,00 parecia fraco perto dos R$ 8.400,00 da ida, mas deixa quase R$ 2.800,00 a mais do que voltar vazio.
O valor mínimo do retorno
Dá para inverter a conta e achar o menor frete de retorno que ainda vale mais do que voltar vazio:
retorno mínimo = custos de voltar carregado − custos de voltar vazio
No exemplo:
Custos de voltar carregado: R$ 131,80 + R$ 1.845,20 + R$ 474,30 + R$ 250,00 + R$ 525,00 = R$ 3.226,30. Custos de voltar vazio: R$ 2.021,00. Retorno mínimo: R$ 3.226,30 − R$ 2.021,00 = R$ 1.205,30.
Conferindo pelo outro lado: R$ 4.000,00 − R$ 2.794,70 = R$ 1.205,30. A conta fecha.
Abaixo de R$ 1.205,30, nessa rota e nessas condições, voltar vazio sai mais barato. Acima disso, o retorno ajuda.
Os dias de espera mudam tudo
O item que mais vira a conta é o tempo. Cada dia a mais esperando carga soma o dia do caminhão e a comida. Com R$ 525,00 do dia e R$ 80,00 de comida, cada dia a mais custa R$ 605,00.
Dias a mais em relação à volta vazia Retorno mínimo 1 dia R$ 1.205,30 2 dias R$ 1.205,30 + R$ 605,00 = R$ 1.810,30 3 dias R$ 1.810,30 + R$ 605,00 = R$ 2.415,30
Um retorno de R$ 2.000,00 que sai amanhã é bom negócio. O mesmo retorno com três dias de fila na porta do armazém é pior do que voltar vazio.
E se você já tem carga boa marcada para segunda-feira e o retorno faz você chegar na terça, o custo real é perder aquela carga, o que pesa mais do que os R$ 525,00.
Retorno mínimo não é preço
O retorno mínimo diz quando aceitar é melhor do que voltar vazio. Ele não diz que esse é um preço bom. No exemplo, um retorno de R$ 1.300,00 deixa só R$ 94,70 a mais do que voltar vazio (R$ 1.300,00 − R$ 1.205,30). Você rodou 765 km carregado para quase nada, e a viagem continua com o buraco da volta.
Duas coisas para olhar antes de aceitar um retorno barato:
- Como a ida foi cobrada. Se a ida foi calculada contando a volta vazia, como em como calcular o valor do frete, a ida já pagou o caminhão e o retorno é dinheiro a mais. Se você cobrou a ida mais barato contando com carga de volta, o retorno precisa pagar a parte dele dos custos fixos, e o mínimo dele sobe.
- O piso da ANTT. Compare o valor oferecido com o piso mínimo vigente para aquela carga, no site da ANTT. Retorno barato não pode estar abaixo do piso.
Quando a volta vazia é paga pelo contratante
Na maior parte das cargas, a volta vazia é problema de quem transporta. Pela norma nº 5.867/2020 da ANTT, o piso mínimo inclui o pagamento do retorno vazio em casos específicos: transporte de contêiner e veículos de frotas específicas, dedicados ou fidelizados por razões sanitárias ou por certificações que limitem o tipo de produto transportado. Um exemplo é o caminhão de combustível, que não pode voltar com outro tipo de carga.
Nesses casos, segundo a ANTT, o piso da viagem é o piso da ida somado ao valor do retorno, calculado com 92% do coeficiente de custo de deslocamento (CCD) da composição multiplicado pela distância da volta. Para o valor exato, use a tabela vigente e a calculadora de frete no site da ANTT, porque os coeficientes são atualizados.
Depois da viagem, confira
Depois que o retorno terminar, olhe quanto sobrou de cada frete, a ida e a volta separadas. Assim você sabe se o retorno daquela rota costuma valer a pena. No Trecho, a ida e o retorno ficam como dois fretes, cada um com seus abastecimentos e despesas, e você vê quanto sobrou de cada um.
Resumo
- Compare o frete de retorno com a volta vazia, e não com o valor da ida.
- A volta vazia custa diesel, pneu, manutenção e pedágio, sem entrar dinheiro.
- Retorno mínimo = custos de voltar carregado − custos de voltar vazio, contando km a mais, diesel carregado, dias a mais e despesas.
- Cada dia de espera aumenta o retorno mínimo. Muitas vezes os dias parados pesam mais do que o valor do frete.
- Retorno mínimo não é preço bom: confira como a ida foi cobrada e o piso da ANTT.
- Em contêiner e frotas dedicadas por razões sanitárias ou certificações, o piso da ANTT inclui o pagamento do retorno vazio.
Fontes
- ANTT, Perguntas frequentes: em quais casos o transportador deve receber pelo retorno vazio e como calcular
- ANTT, Notícia sobre o frete de retorno na norma nº 5.867/2020
Quer essa conta pronta a cada frete?
No Trecho você lança o frete, o diesel e os gastos da viagem. Ele mostra quanto sobrou de cada frete e do mês, sem você fazer conta.